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sábado, 27 de setembro de 2014

Anos 1970: Primeira Grande Crise do Basquete Brasileiro

A Seleção Brasileira de Basquete Masculino viveu momentos extremamente conturbados na década de 1970 depois da saída de Togo Renan Soares, o Kanela, do posto de técnico da seleção. Sentiu falta de sua capacidade como treinador, mas, sobretudo, teve dificuldade de fazer a renovação da fantástica geração de Amaury Pasos e Wlamir Marques, uma missão nada fácil. Quando Kanela assumiu a Seleção Brasileira como treinador, o Uruguai tinha seis títulos de Campeonato Sul-Americano, a Argentina tinha cinco e o Brasil só dois. Quando Kanela deixou a Seleção, o Brasil tinha oito títulos, o Uruguai também oito e a Argentina tinha seis.

O Brasil havia sido vice-campeão Mundial em 1954, Bi-campeão em 1959 e 1963, terceiro lugar no Mundial de 1967 e vice-campeão em 1970. Acumulava três Medalhas de Bronze em Jogos Olímpicos (1948, 1960 e 1964) e havia ficado em quarto lugar nas Olimpíadas de 1968. O Brasil havia alçado um vôo para o primeiro escalão do basquete mundial, e queria manter-se lá. Chegou àquele nível pelas mãos de Wlamir e Amaury e pela visão de jogo do “Velho Togo”.

Em 1954, o time formado por Angelim, Algodão, Wlamir Marques, Mayr Facci e Amaury Pasos, comandados por Kanela, e com Alfredo da Motta (já veterano), Godinho e Mário Hermes no banco, perdeu a final do Mundial, no ginásio do Maracanãzinho, para os Estados Unidos (62 a 41 no placar). Em 1959, no Chile, o time perdeu para a União Soviética duas vezes (73 x 64 e 66 x 63) e venceu os EUA (81 x 67). Só foi campeão porque, por razões políticas, os soviéticos se negaram a enfrentar Taiwan (que à época se chamava Formosa) e foram desclassificados do torneio. Depois de ficar com o Bronze nos Jogos Olímpicos de 1960 (atrás de americanos e soviéticos), no Mundial de 1963, novamente jogando no Maracanãzinho, o time brasileiro – treinado por Kanela, e jogando com Wlamir Marques, Rosa Branca, Victor Mirshauswka, Amaury Pasos e Ubiratan – venceu à União Soviética (90 x 79) e aos Estados Unidos (85 x 81) e ficou com o troféu no Brasil.

Depois ainda foi terceiro lugar nas Olimpíadas de 1964 e no Mundial de 1967, e obteve um quarto lugar nas Olimpíadas de 1968, sempre atrás de Estados Unidos, e de ora União Soviética ora Iugoslávia. A Seleção Brasileira voltou a fazer uma grande campanha no Mundial de 1970, e jogando fora de casa, na Iugoslávia. O time de Kanela tinha Hélio Rubens, Wlamir Marques, Edvar Simões, Menon e Ubiratan; venceu a União Soviética (66 x 64) e os Estados Unidos (69 x 65), mas caiu diante da seleção anfitriã (implacáveis 80 x 55).

A renovação depois destes resultados e da saída de Kanela foi traumática. Depois de mais de uma década figurando sempre entre os 4 melhores do mundo, o Brasil saiu deste seleto grupo. No Mundial de 1972, a Seleção Brasileira foi treinada por Pedrocão, de Franca, e amargou a sétima posição. No Mundial de 1974 o treinador foi Édson Bispo, mas o resultado não melhorou: sexta colocação. O ápice para a crise veio após o Pré-Olímpico de 1976, quando a equipe treinada por Édson Bispo perdeu a vaga com uma derrota para o México. Pela primeira vez o Brasil estava fora do torneio de basquete olímpico masculino. O resultado: crise! O basquete brasileiro virou um caldeirão.

A temperatura pode ser sentida na matéria da revista Placar: edição 335, de 11 de fevereiro de 1977. A revista trazia matéria bombástica, expondo a crise pela qual passava o basquete brasileiro: "nós estacionamos" dizia Alberto Curi, então presidente da CBB; "falta preparação adequada (para estar no topo do basquete mundial)" dizia o então jovem treinador Ary Vidal, que com pouca experiência e sob muita desconfiança, tinha recém assumido a Seleção Brasileira; "(o problema é que) meus colegas são covardes" bradava em alta voz o então técnico do Flamengo, Tude Sobrinho; "o mal é da cúpula do basquete, que não está entregue em boas mãos" afirmava Kanela.

O principal motivo para a crise estava no fato de o Brasil não ter conseguido a classificação para os Jogos Olímpicos de 1976, levando à demissão do treinador Édson Bispo. A principal responsável segundo quase todos era a política, que neste caso se escondia por trás de um verdadeiro duelo ideológico entre Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo atacava a constante escolha de técnicos cariocas e o fato de a sede da CBB ser no Rio, já o Rio de Janeiro atacava o estilo político paulista, fechado e excludente (falava-se um "absolutismo paulista"). Entretanto, ambos, cariocas e paulistas, eram unânimes em metralhar em críticas a direção da CBB.

Palavras do então técnico da Seleção Brasileira, Ary Vidal: "os problemas são tantos que sempre haverá dificuldades para se treinar a Seleção. Agora mesmo, duvido que todos os atletas apareçam no dia da apresentação (para a disputa do Sul-Americano)". Destacava a matéria da revista Placar: "acertou: faltaram Eduardo Agra, Marcel, Ubiratan, Hélio Rubens, Gilson, Evaristo, Fausto Giannechini e Adílson" (todos jogadores de Palmeiras e Franca). Os clubes queriam excursionar para angariar fundos para a manutenção financeira de suas equipes de basquete, e não liberavam seus jogadores para disputar o Sul-Americano.

Kanela piorava ainda mais as palavras do presidente da Confederação: "O Cúri diz que nosso basquete estacionou. Vou além: está andando para trás". Kanela atacava com sua metralhadora giratória: "os atuais jogadores são muito mascarados e já não se empenham tanto quanto os de antigamente".

Palavras de Cúri, presidente da CBB: "quando falo que estacionamos quero me referir ao progresso dos países que nos passaram. Quem falava de Iugoslávia, Canadá e Porto Rico? De 1968 para cá, começamos a sentir que nossos adversários melhoravam".

Para Tude Sobrinho estava faltando à Seleção "mais Kanelismo", uma alusão à filosiofia de trabalho de Kanela. Tude Sobrinho ia além nas declarações: "São Paulo não deixa (que eu assuma a seleção), o pessoal de lá não gosta de mim, pois todos os jogadores cariocas passaram nas minhas mãos. Fui tetracampeão brasileiro de juvenis com a Seleção Carioca. Eles não engolem isso. Quanto a mim, acontece justamente o contrário: gosto do basquete paulista". Um comentário um tanto "morde e assopra", parecendo querer atacar e ao mesmo tempo ser um pouco diplomático. Tude continuava: "o basquete não estacionou porque existe São Paulo. Lá as coisas vão bem. Mas em parte podemos admitir o estacionamento, pois estamos praticamente reduzidos a São Paulo. Por quê? Porque nos faltou um trabalho de renovação".

Após Édson Bispo, o comando da Seleção foi posto nas mãos de Ary Vidal, técnico ligado ao basquete do Rio de Janeiro e sem resultados expressivos a nível nacional. Ary Vidal havia dado ao Peru o título do Sul-Americano Feminino de 1977 e a CBB resolveu apostar nele. Ele acabou sendo campeão também do Sul-Americano Masculino em 1977 e conseguiu colocar a Seleção Brasileira de novo no pódio no Mundial de 1978, obtendo um terceiro lugar, com destaque para uma excepcional vitória por 92 x 90 sobre os EUA. Acabou perdendo para Iugoslávia (97 x 81) e União Soviética (94 x 85). Um time que tinha Oscar, Marcel, Hélio Rubens, Carioquinha, Gilson Trindade e Marquinhos Abdalla.

Depois dos resultados obtidos por Ary Vidal, o otimismo voltou a rondar o país e a crise no basquete masculino passou. O sentimento em torno à situação do basquete brasileiro parecia já ser outro nos anos 1980. Kanela, em entrevista à revista Placar (edição 827, de 31 de março de 1986): "nunca vi tanto craque". Alongava-se: "depois dos bicampeões apareceram alguns bons jogadores, mas nenhum da capacidade de Amaury, Wlamir, Ubiratan, Menon e Waldemar. Hoje em dia, porém, vejo que estão surgindo jogadores com potencial que me fazem lembrar aquele time. (...) Gérson e Pipoka são geniais (...) temos Marcel que é um gênio como foram Wlamir e Amaury, e Oscar, que aprendeu a encestar quando estava ainda na barriga da mãe (...) Maury, irmão do Marcel, é também um monstro". "Considero Ary Vidal um bom técnico, mas ele precisa de apoio dos técnicos paulistas".

Ary deixou a Seleção e os resultados voltaram a piorar. Nas Olimpíadas de 1980, com Cláudio Mortari como treinador, o Brasil ficou em quinto lugar. No Mundial de 1982, treinado por Edvar Simões, o Brasil não passou de um oitavo lugar. Com Renato Brito Cunha como treinador nos Jogos Olímpicos de 1984 a posição caiu ainda mais: 9º lugar. Foi Ary Vidal voltar e o resultado melhorou. Com ele o Brasil foi quarto lugar no Mundial de 1986, Medalha de Ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1987, com a fantástica vitória por 120 x 115 sobre os Estados Unidos em Indianápolis, e 5º lugar nas Olimpíadas de 1988.

As confusões políticas atormentavam o basquete brasileiro. A maior confusão se deu na Taça Brasil de 1979. Na semi-final, Franca venceu o Vasco por 79 a 77, e o Sirio venceu o Jóquei Clube de Goiás por 73 a 71. Porém, os goianos se revoltaram, porque segundo eles o árbitro apitou falta no garrafão antes de o cronômetro ser zerado, mas houve invasão de quadra para comemorar a vitória do Sirio e na confusão o juiz encerrou o jogo, confirmando que o relógio tinha zerado antes da falta. Revoltados, no dia seguinte, os goianos se negaram a enfrentar o Vasco na decisão de terceiro lugar, mas estiveram em quadra, ficando o tempo todo parados, impedindo a realização do jogo e atrasando o início da final entre os paulistas Franca e Sirio no Ginásio do Ibirapuera, jogo que acabou vencida pelo time da capital por 87 a 86. O Sirio que, naquele mesmo ano, também jogando no ginásio do Ibirapuera, iria conquistar o Mundial de Clubes.

A dificuldade, no entanto, ia muito além de uma confusão pontual ou outra. O Brasil tinha muita dificuldade para levar o basquete masculino para fora de São Paulo, e isto era visto como um limitador do potencial técnico do basquete nacional. Em fevereiro de 1984, a revista Placar trazia a matéria "Perigo: só dá São Paulo (no basquete)" (edição 715, de 3 de fevereiro de 1984): "das 15 Taças Brasil disputadas, os times paulistas venceram 13". O pivô Marquinhos Abdalla, então defendendo o Sirio, fez nesta matéria a sua análise dos fatos: "isso é muito ruim, porque a Seleção Brasileira acabou se tornando na verdade um selecionado paulista, completamente divorciado do resto do Brasil em termos de apelo popular nacional".

Emmanuel Bonfim, então técnico do Flamengo, dava seu diagnóstico: "no Rio, a maioria dos jogadores trabalha e só pode treinar à noite, em São Paulo, os jogadores dedicam-se inteiramente ao basquete". Naquele mesmo ano, Marquinhos trocaria o Sirio pelo Flamengo, que havia decidido investir pesado no basquetebol e montar o elenco mais caro do país. Campeão Carioca, mas tendo perdido o título da Taça Brasil para o Monte Líbano, duas semanas depois da final nacional a diretoria anunciou o desmonte do projeto, pois considerava as propostas de renovação salarial pedidas pelos jogadores fora da realidade financeira do clube. O basquete brasileiro ainda parecia estar muito distante de conseguir superar esta barreira. E fora de São Paulo, o basquete se restringia paticamente aos quatro times mais tradicionais do futebol do Rio de Janeiro, ainda que o time do Bradesco tivesse ensaiado um primeiro projeto alternativo a esta realidade no Campeonato Carioca de 1984. Na entrevista à edição 827 da revista Placar, Kanela deu sua versão para as dificuldades do basquete carioca: "houve uma fase grande de marasmo, mas o que realmente prejudica o basquete no Rio é que os clubes só pensam em futebol". Fora do eixo Rio-São Paulo, com competitividade para lutar na ponta, houve os projetos em Goiás nos anos 1970 com as equipes do Vila Nova e do Jóquei Clube, mas os projetos não se sustentaram financeiramente por mais do que alguns anos.

A esperança de modernização do basquete brasileiro culminou com a realizaão da 1ª Liga Nacional de Basquete em 1990, e com a tentativa de atrair empresas para financiar os projetos. Em parte deu certo, mas com efeitos colaterais. Os clubes ainda não tinham condição administrativa e financeira de organizar uma Liga, e a organização continuou sendo da CBB (na Argentina, por exemplo, os próprios clubes assumiram a administração). E a estratégia de atrair empresas funcionou a curto prazo, mas teve um efeito colateral negativo, pois afastou os projetos dos clubes, que eram os grandes investidores nas divisões de base, concentrando os investimentos em projetos de mais curto prazo, que traziam retorno mais imediato para o capital privado das empresas que assumiram os investimentos. Crises parcialmente contornadas, mas que deixaram feridas abertas que cobrariam suas consequências nas décadas seguintes.

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